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A norte dos 66°N

Catarina V. Guerreiro
Aug 15
6 min read

Updated: Aug 21

Finalmente um momento mais calmo para escrever, serenar e apreciar o sossego e a luz morna do meu quarto no RV Odón de Buen. O balanço suave, muito suave, do navio; o som longínquo do motor e das manobras do guincho ainda a decorrer; e uma noite que, apesar da hora tardia, nunca chega a ser completamente escura por estes lados.

Troquei o calor abrasador do verão de Lisboa pelo frio de rachar do Mar da Gronelândia, onde me encontro embarcada em mais uma aventura oceanográfica: desta vez, a expedição IMAGE (Impact of Mesoscale Activity on Greenland SEa biogeochemistry) liderada pelo IOCAG-ULPCG (Javier Arístegui) e co-liderada pelo IIM (Pepe Salgado). Zarpámos de Reykjavík, na Islândia, no dia 2 de agosto, mas poucos dias depois tivemos de nos refugiar de uma tempestade num fiorde islandês antes de podermos retomar o trabalho. Nestas latitudes não se brinca com o mau tempo: além de não conseguirmos operar os equipamentos em segurança, também não queremos correr o risco de os perder pelo caminho...

Até agora, só tenho coisas boas a dizer. Tenho um quarto espaçoso, com casa de banho aquecida só para mim; a comida é saborosa e parece estar sempre disponível; e, mais importante, o ambiente a bordo é amigável, descontraído e alegre. Há sempre alguém disponível para ajudar, e muito conhecimento interessante para partilhar.

Mas o que viemos aqui fazer?

A grande missão da expedição IMAGE é perceber o que controla a Bomba Biológica do Carbono no Mar da Gronelândia, precisamente numa região onde se formam massas de água profundas que alimentam a circulação global do oceano. Interessa-nos particularmente perceber o papel de processos que acontecem a escalas temporais relativamente curtas — frentes oceânicas, vórtices (eddies) e filamentos. Estas estruturas podem alterar a estratificação da coluna de água e a disponibilidade de luz e nutrientes para o fitoplâncton, influenciando a produtividade biológica e, potencialmente, a quantidade de carbono que acaba por ser exportada da superfície para o oceano profundo.

PML researcher Peter Miller’s post on LinkedIn: “When a bright coccolithophore bloom meets mesoscale eddies in the Greenland Sea (05-07 Jun. 2026). Each eddy is 60-100km and the bloom is about 500km across, similar to the distance from London to Edinburgh”.
PML researcher Peter Miller’s post on LinkedIn: “When a bright coccolithophore bloom meets mesoscale eddies in the Greenland Sea (05-07 Jun. 2026). Each eddy is 60-100km and the bloom is about 500km across, similar to the distance from London to Edinburgh”.

E estamos num lugar particularmente interessante para investigar estas ligações. Conhecemos relativamente bem a importância desta região para a formação de águas profundas e para a chamada Bomba Física de Carbono, mas conhecemos consideravelmente menos os processos que controlam a sua Bomba Biológica de Carbono, e a forma como as duas interagem. Isto é particularmente relevante no Ártico, uma região que está a aquecer mais rapidamente do que a média global, com alterações rápidas na cobertura de gelo marinho, na estratificação e na circulação oceânica, suscetíveis de afetar tanto a produtividade biológica como a exportação de carbono.

Tendo passado grande parte da minha carreira a estudar o Atlântico tropical, subtropical e temperado, esta aventura permite-me transportar algumas das perguntas que me têm acompanhado ao longo dos anos para um sistema oceanográfico completamente diferente – e em rápida transformação.

Uma equipa verdadeiramente multidisciplinar

Uma das coisas mais estimulantes nesta expedição é a diversidade da equipa. Há quem estude circulação e turbulência; quem meça nutrientes, oxigénio, pH, alcalinidade e gases; quem siga a matéria orgânica e inorgânica; quem investigue bactérias; quem estude a abundância, fisiologia e diversidade do fitoplâncton e do zooplâncton; quem procure perceber o que acontece às partículas biogénicas quando começam a afundar ao longo da coluna de água marinha. No fundo, cada um observa uma peça diferente  deste enorme puzzle, e juntos tentamos compreender o oceano como um sistema.

A minha missão:  o plâncton calcificante

Durante a IMAGE estou a estudar a bomba de carbonato, isto é, a produção e exportação de carbonato de cálcio (CaCO₃) por organismos marinhos calcificantes. Os meus  “suspeitos” habituais são os cocolitóforos — minúsculas algas unicelulares revestidas por placas de carbonato de cálcio (os cocólitos), e os principais representantes do Nanoplâncton Calcário.  Mas desta vez  a “família” é maior: com a ajuda da nossa zooplânctologista Marja Koski (DTU, Dinamarca) e do nosso jovem oceanográfo Paul Hanke (GEOMAR, Kiele), estamos também a recolher organismos zooplanctónicos calcificantes (foraminíferos planctónicos, pterópodes, etc) com redes de plâncton.

Ao longo dos ~200 metros superiores da coluna de água recolho amostras para estudar as comunidades de cocolitóforos e os pigmentos fotossintéticos, que nos permitirão contribuir para caracterizar a comunidade fitoplanctónica e bacteriana no seu conjunto, em sinergia com as nossas intrépidas fitoplânctologistas do MIO (Melilotus Thyssen), IOCAG-ULPGC (Javier Arístegui, Nandy Monteiro, e Nauzet Hernández), IEO-CSIC (Massimo Pernice), e AWI (Anna Narberhaus).

Amostragem e processamento durante a expedição IMAGE. (a–b) Operações com a rosette CTD; (c) lançamento do Marine Snow Catcher; (d–f) processamento e filtração das amostras a bordo; (g) cocolitóforos observados por microscopia de luz polarizada.
Amostragem e processamento durante a expedição IMAGE. (a–b) Operações com a rosette CTD; (c) lançamento do Marine Snow Catcher; (d–f) processamento e filtração das amostras a bordo; (g) cocolitóforos observados por microscopia de luz polarizada.

Mas eu quero saber não apenas quem está à superfície, mas também quem está a afundar. Por isso, em colaboração com os colegas biogeoquímicos do IIM (Pepe Salgado e Vanesa Viéitez) estamos a utilizar um Marine Snow Catcher: uma espécie de gigantesca garrafa oceanográfica que recolhe cerca de 100 litros de água abaixo do máximo de clorofila. Depois deixamos as partículas sedimentar e separamo-las de acordo com a sua velocidade de afundamento. O nosso objectivo é perceber que cocolitóforos e partículas carbonatadas conseguem sair da camada produtiva e seguir viagem para as profundezas e até que ponto o CaCO₃ pode funcionar como lastro, ajudando agregados ricos em matéria orgânica a afundar mais depressa.

Amostragem com rede de plâncton durante a expedição IMAGE. (a) Lançamento de uma rede de plâncton WP2; (b–d) processamento das amostras de plâncton a bordo; (e–f) zooplâncton recolhido no Mar da Gronelândia, incluindo os pterópodes Clione limacina (conhecido como "anjo do mar") e Limacina helicina, com concha (conhecido como "borboleta do mar"). Photo Credits: (a,e) Catarina V. Guerreiro, (b–d) Markel Letona, (f) Jana Piñel.
Amostragem com rede de plâncton durante a expedição IMAGE. (a) Lançamento de uma rede de plâncton WP2; (b–d) processamento das amostras de plâncton a bordo; (e–f) zooplâncton recolhido no Mar da Gronelândia, incluindo os pterópodes Clione limacina (conhecido como "anjo do mar") e Limacina helicina, com concha (conhecido como "borboleta do mar"). Photo Credits: (a,e) Catarina V. Guerreiro, (b–d) Markel Letona, (f) Jana Piñel.

Estar embarcada

Mas uma expedição oceanográfica nunca é apenas ciência. Uma das coisas de que mais gosto quando estou embarcada — e já lá vão 14 destas aventuras — é precisamente isto: saber que estou no meio do oceano, temporariamente afastada da “vida real” de todos os dias, e apenas presente e disponível para a missão que temos perante nós durante as próximas semanas.

Regra geral, estou habituada a quartos bastante mais pequenos do que este “palácio” que me calhou. Às vezes pouco mais do que um beliche de teto baixo (lembro-me das inúmeras cabeçadas!), como quando fui à Antártida em 2019, a bordo do saudoso Navio Polar Almirante Maximiano. Aqui, no majestoso RV Odón de Buen, até me dou ao luxo de aquecer a toalha de banho na minha casa de banho privativa, novinha em folha e pronta a estrear à minha chegada J

Estar no mar... é difícil de explicar porquê, mas faz-me sempre bem. Pode não acontecer logo nos primeiros dias, muitas vezes ainda tensos e de ajustamento: assegurar que tudo está preparado para o início das amostragens, a adaptação a uma rotina completamente nova, aos horários diferentes, à comida, à socialização incessante e a uma certa forma de cansaço que se cola teimosamente aos ossos enquanto ainda não nos habituámos a estar aqui. Mas, com o passar dos dias, o meu corpo e o meu espírito lá acabaram por encontrar o seu “cantinho existencial” neste pequeno “país multi- e transcultural flutuante” chamado Odón de Buen.

Ciência, bacalhau, línguagens e toalhas portuguesas

É irresistível estar rodeada de tantos especialistas e não bombardeá-los com perguntas. As conversas saltam da oceanografia física para a biogeoquímica, do plâncton para a alcalinidade, o pH e o clima, e várias pessoas têm também curiosidade em perceber como é que uma micropaleontóloga como eu acabou por enveredar por caminhos científicos tão marcados pela oceanografia biológica e interações atmosfera-oceano.

Além dos temas científicos, existem, claro está, as “típicas conversas de expedições internacionais”; se eu tivesse de eleger um Top 5 dos temas mais recorrentes a bordo, entrariam certamente a riqueza e complexidade histórica, cultural e linguística de Espanha; as comidas e bebidas típicas — e favoritas — de cada um dos nossos países; a política e as transformações sociais que atravessam atualmente o mundo ocidental; os nossos diferentes gostos musicais durante as longas horas de filtração no laboratório molhado; e, inevitavelmente, as curiosidades e estereótipos que cada um traz sobre os países dos outros.

Tem sido particularmente divertido descobrir Portugal através dos olhos dos meus companheiros de viagem. A nossa obsessão coletiva com o bacalhau é sobejamente conhecida; o vinho português parece ter excelente reputação; há alguma perplexidade perante o facto de um país com tanto mar (e tanta história de mar!) não investir mais na investigação do oceano aberto; o fado continua associado à nossa suposta melancolia; e somos aparentemente bons a aprender línguas estrangeiras. E descobri uma coisa sobre Portugal que desconhecia: de acordo com os nossos “vizinhos ibéricos e canários”, somos e um ótimo país para comprar toalhas com boa relação qualidade/preço (…?...) :D

Também se confirma uma sensação boa que já trazia de convívios anteriores: uma certa forma de carinho que os galegos — que são muitos a bordo — parecem ter por Portugal. Há uma proximidade linguística, histórica, cultural e até emocional entre os dois povos.

Navegar a norte do Círculo Polar Ártico

Por enquanto, tirando alguns icebergs relativamente longínquos e ocasionais, ainda não sinto que a paisagem em redor seja muito diferente do Atlântico a que estou habituada. Por isso anseio pela chegada ao último transecto da expedição, no Estreito de Fram, a cerca de 80°N. Aí sim, espero encontrar  a paisagem gelada que marca o imaginário de todos nós à medida que nos aproximamos do Pólo Norte. Fiquem atentos a mais novidades da nossa equipa!

 
 
 

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